Em que o bêbedo saiu à rua
E a criança sozinha ficou em casa.
Gritos mudos chegam-me aos ouvidos,
E dou por mim a perscrutar aquilo que mais ninguém consegue.
Inocente, e ingénua,
Julgo-me uma grande defensora dos oprimidos,
Ao lado dos mais rebeldes,
A par com os génios ilustres,
A quem todos fazem vénia.
Que toda a gente cita de vez em quando.
Alegria e êxtase por ver o que mais ninguém é capaz!
Incomensurável felicidade, atingi o patamar dos deuses.
E atinjo igualmente a ironia para com a minha própria pessoa.
Senhores, (e senhoras).
Mais uma noite que passo sem dormir,
E que humildemente dedico à simples e complexa escrita.
Numa adoração constante e numa pretensão
Por chegar a sítios que antes de mim muitos atingiram.
Aos meus joviais e presunçosos dezanove,
Que pouco vi, que pouco andei,
Mas que tudo pensei.
E que, cá por dentro,
Por tudo viajei.
Se eu vir o nascer do sol, quero guardá-lo comigo.
E vezes sem conta, ao longo do dia, vislumbrar um novo começo,
Para quem ainda mal começou.
E de madrugada,
Em que o pai chega a casa,
Bate nos filhos,
Contemplo de um vislumbre os meus irmãos.
A pequena adormecida no seu ninho.
E sinto a sorte que tenho,
Por pequena que às vezes gosto de me sentir,
Apaparicada, amada, adorada.
E abraço-os, com vontade de sentir os coraçõezinhos deles bater,
De pequenos que são,
De amados que são,
De belos que são,
Por serem quem são.
E sentido a sorte de quem tem tudo.
De quem não tem nada.
Almejo a vontade de olhar em volta
E me sentir olhada.
Querida por quem quero bem.
Preciosa por ser quem sou,
Aos olhos de quem quero ser.
Quantos o podem dizer?
E então eis que ouço um grito que toda a gente ouve.
Corro para a janela, a minha mãe inquire
Silêncio, peço, que quero ouvir!
Não é nada,
Alguém apenas se assustou.
E na rua, toda a gente veio espreitar.
Na pressa que têm em sofrer pelos outros.
Num acto redundante, levam as mãos à boca,
Comentam a vida dos outros,
Sem querer que a sua seja comentada.
Ou talvez queiram.
Povo que à janela fica,
À espera que as coisas aconteçam,
Não sofrem já o suficiente.
Não têm dor para carpir.
Precisam da dor dos outros.
E eis, que na espera vã de um deus que nunca viram,
Todos se despedem
“Até amanhã, se Deus quiser”
Entregam a vontade a quem nem sequer sabem se existe.
Mas consola-os fazê-lo.
Despirem-se de responsabilidades.
Conscientes que, se algo corre mal, a culpa será sempre
De quem nunca está presente.
Grito eu, gritam todos,
E num ciclo vicioso de entrega de responsabilidades,
Ninguém quer ser responsabilizado.
Ninguém quer ser apontado.
Toda a gente tem razão,
E sem a ter, ninguém não a tem.
E olhando por uma história que ninguém sabe contar
Mas da qual toda a gente sabe falar.
Eis que todos falam,
Mas ninguém diz nada.
Eis que todos são pensadores,
Mas nenhum realmente pensa.
Eis que todos são contadores de histórias,
Mas ninguém realmente as sabe narrar.
Eis que todos amam
Mas ninguém sabe amar.
Pego na minha pequena ao colo,
Acordou,
E olhou para mim,
Sorriu, e abriu para mim os seus pequenos braços
Sinto a felicidade e a inocência dela preencher-me.
Completa-me, a sua infância,
Vivo através dela,
Querendo tê-la comigo,
Senti-la por perto.
Vê-la crescer,
Correr,
Amar, perder-se!
Devolver as mágoas que lhe causarem.
Mostro-lhe as estrelas,
Num encontro entre o céu e a terra
Que está para além da sua compreensão.
Mas que a quero ver entender.
Endiabrada, nos primeiros passos,
Rasga um livro do nosso irmão.
A mãe ralha-lhe, e ela chora.
E de imediato, como irmã de vintes que sou,
Pego nela, e levo-a para a minha beira.
Conto-lhe uma história.
Que sei que ela não vai entender.
Mas que mais tarde há-de saber.
“Liberdade efémera, prisioneira das suas próprias asas.
Não compreende voar…
Prisioneiro sem correntes,
Não se consegue entender assim…
Não sabe viver.
Tiraram-lhe tudo!
Deram-lhe tudo!
Ignóbeis…
Cruéis…
Desalmados!
Esses humanos…
Todos os dias,
Arranhava as paredes da sua jaula.
Querendo sair.
Respirar um ar menos viciado.
Os seus dedos sangravam aspirando tanta liberdade!
E agora, não tem porque esgravatar.
E as suas mãos estão viciadas…
Mordia,
Insaciavelmente as grades da sua jaula.
Procurando um modo de escapar!
Os seus dentes lascados, estragados.
Por um raio de sol menos restrito!
E agora, que vai roer?
Não consegue remendar as suas gengivas.
Agora, compreende o mal maior que foi garantirem-lhe esse ar,
Esse sol!
Passara de humano a uma simples toupeira.
E agora, nem humano, nem toupeira o permitiam ser.
Era um simples nada…”
Olha para mim, e ri.
Não compreende as minhas palavras, mas acha-lhes piada.
Escrevo para que mais tarde ela possa ler.
Para que mais tarde compreenda.
E sobre mim os anos passam,
Sobre os meus irmãos, vão passando.
E olho para eles, entendendo o que perdi.
Rindo sobre o que não vivi.
Olhando para trás, lamentando o que recusei.
A minha mãe chama por mim.
Pouco se mexe, a pequena não lhe deixa…
Olho para ela, com a sua barriga inchada.
E anseio pelo nascimento.
Antevejo os próximos anos.
E desejo-os estupidamente.
E a poetisa ri-se das suas obras mais antigas,
As quais guarda religiosamente no fundo da gaveta.
Mostra-as aos filhos,
Desculpando a inépcia da escrita com a adolescência.
Escreveu grandes coisas,
Mas muitas, foi cobarde para as levar mais longe,
Temendo as infames palavras dos outros.
Que a maioria lança comentários sobre as nossas obras,
Sem saber o mal que nos faz.
Agora, mais velha, lamenta as páginas que queimou,
Em lapsos de enormidade que não foi capaz de medir,
Em excessos de uísques, garrafas despejadas pela goela,
Sem realmente existir uma necessidade.
Alegre, e preenchida, dos filhos que tem,
Encolhe os ombros, e contenta-se com a vida que leva,
Querendo no fundo,
O que de melhor perdeu.
Amando o que tem,
Mas sabendo que amaria igualmente o que mais tivesse.
E o actor preenchendo papéis
Que mais ninguém quer assumir,
Ri-se de si próprio,
Numa vontade de se querer sentir melhor.
Depois nota a sua imagem envelhecida ao espelho,
E pergunta porque não pode voltar atrás,
E escolher melhor quem realmente queria ser,
Não apanhar apenas os restos
Que mais ninguém quer recolher.
Numa tentativa frustrante de se superar,
E querer inovar.
O facto é que buscou a diferença, por vezes injustificável,
Num rol de pequenos papéis na sua vida.
Não querendo ser maior.
Querendo ser apenas medíocre.
E o pai,
Que contempla os filhos que tem,
Olha para a mulher que ama,
E repensa a noite em que se comprometeu.
E olhando em volta,
Sempre há momentos em que paramos para pensar.
Alturas em que paramos de viver.
Não quer dizer que concorde.
Não acho bem.
Mas neste ciclo, em que somos mais umbiguistas,
Que realmente altruístas,
Todos paramos.
Por pouco que achemos bem.
Tirei hoje o dia para pensar.
Agradeço o que tenho, mas lamento não ter mais,
Na constante e incessante busca por uma vida que não tenho,
Ou que tenho, mesmo debaixo deste empinado nariz,
Na minha arrogância, ou humildade,
Que tenho, ou não.
Nas incessantes discussões, comigo ou com os outros,
Que tenho, ou que crio.
Que somos todos tão fantásticos,
Tão criativos, para nos perdermos na nossa própria criatividade.
Querendo ser melhores,
A maior parte de nós não passa a insuficiência,
Nesta incessante busca da exagerada humildade.
Somos todos bons,
Somos todos vis.
Somos todos os melhores,
Nos nossos fracassos ou não.
E querendo ser os melhores,
Dar o nosso melhor traz sempre satisfação,
A maior parte contenta-se com o que pode,
Nunca querendo fazer mais.
Porque dá trabalho.
E o marido chega a casa cansado,
E tem o mais pequeno já pendurado em si,
Querendo contar as suas travessuras.
E preso ao seu umbigo,
Dá asas ao seu egotismo,
Quando grita que quer paz e sossego.
Ele grita, a mãe grita, o pequeno chora,
O mais velho bate a porta.
Um carro derrapa, bate.
A mãe grita, corre à porta,
O pai vai atrás.
E ele está bem,
Sentado à soleira da porta.
E os gritos cessam.
Deitei-me na cama da minha mãe,
Agarrada a ela.
Mimalha, chama-me, mas eu sei que ela gosta de mim assim.
Fosse doutra forma, e não seria eu.
A pequenina, a filhinha, a princesa, a pirolita.
Aquela que tem a sorte de ser quem é,
E o azar de não ser um pouco mais.
Fui a correr pela rua fora,
Para contar ao mundo todo que a vida me corria bem.
Tropecei, caí, rasguei as calças.
Voltei para casa, para trocar de roupa.
Saio novamente de casa a mancar.
E desta vez vou com cuidado.
Quando caímos,
É porque andamos feitos estouvados por aí fora.
Querendo cantar aos quatro ventos de que material somos feitos.
Achamos que somos do aço mais forte.
E, quando nos acontece algo, partimo-nos.
Éramos feitos de cristal.
Cantei com o vento as minhas vitórias.
Fiquei sem voz,
Ele levou-ma, não a querendo devolver.
De mãos dadas com quem nos odeia.
Pela rua, passeando, cirandando, numa roda-viva,
Querendo tudo, não vendo nada,
Comprando tudo com os olhos,
Numa necessidade de alimentar a carteira dos outros,
Para aumentar o nosso bem-estar.
E ali mesmo ao fundo da rua,
Um homem estende a mão pedindo o mais básico dos bens,
Que ninguém tem vontade de lhe dar.
Paro à sua frente,
Interrogando a minha consciência,
E inquirindo a minha razão.
Que devo pensar do que tenho?
Mais à frente, uma mãe traz a sua criança no colo,
Pedindo pelo pequeno,
E o meu pensamento volta-se para quem está em casa.
Baixo o olhar e sigo em frente.
Se todos dermos a quem não tem,
Alimentamos vícios,
Na tentativa infrutífera de salvar os outros,
Eis que lhes fazemos pior.
Querendo ser abnegados,
Somos criminosos,
Cooperando com a indolência dos outros.
Dou por mim a pensar no meu futuro.
Naquilo por que luto,
E quantos de nós lutarão pelas causas certas,
Mas quem julga,
Que poder tem para o fazer?
Como se sabe porque lutar?
Quantas causas perdidas existirão neste mundo,
Causas porque quero lutar.
Que na busca incessante do ego,
Toda a criança busca a aparente diferença.
E na brincadeira com os meus,
Rio, saltito, brinco e faço rir,
Com exclamações internas do gosto
Que a maior parte das pessoas nem sonha que me dá.
O sentimento mais belo é o desconhecido,
Aquele que todos buscam sem saber que procuram,
Que todos almejam, numa tentativa de saber o que realmente querem,
Que todos secretamente guardam religiosamente para si,
Querendo mostrar sem que ninguém veja,
Ninguém ouça.
Ninguém note.
E num parto diário,
Sofremos a renovação constante,
A sensação de nascer todos os dias,
Chorar de manhã pela vontade que não temos de sair dos lençóis,
Abrir os olhos para o dia que está à nossa frente,
Crescemos em sentimentos, e eis que ao fim da tarde atingimos o máximo,
Decrescemos, numa vontade de retomar um descanso,
Preparando uma ressurreição daí a oito horas.
E qual Fénix, todas as manhãs, invariavelmente um novo começo,
Que não sabemos parar.
Que temos medo que pare.
Que queremos que seja eterno.
E eterno será na efemeridade da vida,
E receamos o mal,
Receamos a pobreza.
Mas o que é certo?
Pouco ou nada fizemos para o alterar.
E consolados com o que temos,
Eis que não buscamos os nossos tesouros,
Não sabemos procurar.
Não somos salteadores,
De uma arca, que está mais que perdida,
Em sonhos que nós nem sabemos que existiram,
Que ignoramos,
Por acharmos que foram apelos desesperados
Na tal idade que ninguém entende,
E da qual toda a gente é entendida.
Numa vida, da qual todos somos experimentados,
Mas ninguém sabe nada.
Sorrimos, carpimos, quem sabe se pelos motivos certos,
Sendo juízes das nossas próprias causas,
E advogando aquelas teorias que ninguém quer pensar.
E eis que todos sabemos tudo.
Só cá anda quem cá se safa,
Nesta existência plena,
Por pequenas e ínfimas partes deste macrocosmos que somos,
Que todos mais nos julgamos,
Que somos quanto quisermos ser,
Se não nos prendermos ao que tememos.
Impossível é quando o sonho o determinar,
E voar é só abrir estas asas feitas do ar que está em volta.
De todos os dogmas que possamos assumir,
Os mais correctos estão nos limites da nossa existência,
Limites que insistimos em criar.
Limites que não queremos estabelecer,
Mas, empacotados nos cânones dos outros,
Sentimo-nos na obrigação de executar.
Como um simples passo de dança,
Minuciosamente coreografado,
Para que nada corra mal.
Tão profissionais nos julgamos,
E mal pisamos este nosso palco,
Perante a nossa audiência,
Parece que tudo quanto há de mal nos acontece.
Na urgência desta vontade de vingar na vida,
Na sede de vitória fácil que a maioria almeja,
Um simples erro destrói-lhes o sonho,
E qualquer coragem de um esforço maior.
E colho uma flor,
Uma simples e pequena rosa,
Que coloco na cabeceira da minha mãe,
Da minha irmã por vir ao mundo,
Nesta noite em que já mais de meio mundo dorme,
E eu desço e subo escadas,
Passeio de um lado para o outro,
Com sentimentos de frenética que não sou bem capaz de explicar,
Desejo executar voos nunca antes pensados.
E cansada deste dia já muito longo,
Embrulho-me nos meus lençóis.
E lá fora no frio de uma noite invernal,
Eis que alguém parte uma garrafa,
Pragueja um pouco, abre uma porta,
Fecha-a de seguida.
E na rua faz-se o silêncio.
Pela minha irmã a caminho, pelos que já cá estão, e pelos que hão-de vir.
Janeiro de 2005
